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sábado, 13 de junho de 2026

VICTOR ALEGRIA

VICTOR José de Melo ALEGRIA Lobo, o filho mais velho da família vizinha da casa de Carlos Jorge Mota, emigrado em Dezembro de 1963 para o Brasil por motivo de força maior, detentor em Brasília duma Editora conhecida, e com o Estatuto de Comendador, quer em Portugal quer no Brasil quer ainda na Roménia, decidiu iniciar periodicamente uma viagem a Portugal com intelectuais brasileiros da sua área de amizade e conhecimento, a que atribuiu a designação de Caravana de VIAGEM ÀS NASCENTES DA LÍNGUA PORTUGUESA, em articulação com o autor deste blogue, para efeito de apoio para realização de eventos e a logística inerente, inclusive aluguer de autocarros com motorista, para a itinerância, elaboração de eventos culturais, gastronómicos, de circuitos, visitas-guiadas por amigos seus e conhecedores da zona respectiva descrevendo o seu enquadramento histórico-cultural, idas à Galiza, após contacto com amizades galegas de longa data que facilitaram lá os necessários circuitos, incluindo presenças na A.G.L.P. – Academia Galega da Língua Portuguesa.

Os sucessos foram de tal magnitude que, sucessivamente, estas Excursões se mantiveram e de cuja recordação alguns brasileiros escreveram livros e subsídios para manter viva uma chama que consideram importante, quer pelo que aprenderam in loco quer pelas oportunidades de relação de amizade que foi possível estabelecer.

Entre os dias 2 e 10 deste mês de Junho de 2026 ocorreu mais uma destas Caravanas, a 15ª, desta vez sem a habitual interacção de Carlos Jorge Mota, por razões de impossibilidade pessoal deste, cuja actividade foi diversificada por várias localidades e eventos impactantes: Lisboa, com visita à Sala dos Bicos, cuja cicerone foi Pilar del Rio, viúva de Saramago, encontro com o Embaixador brasileiro Lauro Moreira, deslocação à Embaixada do Brasil, Feira do Livro Sazonal, Academia do Bacalhau - onde se degustou o tradicional prato-típico português; Óbidos, com visita programada e orientada à Biblioteca Municipal; Coimbra em cuja Universidade foi cicerone o Professor Ibsen Noronha; Figueira da Foz, com deslocação à Biblioteca Municipal, igualmente com oferta de livros pelo grupo visitante; Porto, envolvendo Almoço no Restaurante Bibó Porto, seguido de Palestra/Convívio e Apresentação de Livros na Cooperativa Livreira UNICEPE; Ida a Arouca (terra-natal de Victor Alegria) em cuja Biblioteca Municipal houve troca de impressões sobre Cultura e entrega de livros. Na cidade do Porto, houve ainda oportunidade duma visita a um Lar-de-Acolhimento de Idosos durante a qual foi possibilitado trocar palavras muito amistosas com os convivas donde emergiu uma simpatia esfuziante recíproca.

Mas, tudo na Vida tem um princípio ...

Victor Alegria, funcionário bancário em Portugal, actividade cujo horário de entrada dos funcionários era, à época, às 10:00, tomou a iniciativa, fruto do seu gosto intrínseco pela Cultura, na qual se insere o mister livreiro, de alugar um espaço num 7º andar no centro da cidade. O sucesso foi de tal magnitude que se aproveitou o momento de vacatura duma loja no topo superior direito da Rua de Ceuta para, conjuntamente com outros interessados - o custo da renda era de valor considerável -,  ali se instalar a Livraria Divulgação. Atendendo a que todos os agora sócios detinham as sua próprias profissões foi convidado, e aceitou, um empregado duma livraria de grande renome em pleno centro, conhecedor do mister e que passou a ser a figura conhecida  perante o público em geral, face à sua presença permanente no balcão.

Entretanto, Victor, para além da atracção livreira não estava acomodado com a situação política do Portugal de então razão por que optou por ser elemento activo do MUD-Juvenil (Movimento de Unidade Democrática), entidade hostil à Política do Regime. Nessa qualidade é preso e remetido para as masmorras da PIDE, Polícia Política, na Rua do Heroísmo, no Porto. Decorrido um ano em sessões sucessivas de julgamento no Tribunal Plenário (Tribunais específicos para "crimes" políticos) é pronunciada a sentença: Absolvição. Todavia, era normal a PIDE, nestas situações, continuar a controlar a vida do cidadão, inclusive a pessoal. Percepcionando, com alguma ajuda do "espírito santo de orelha", que iria ser preso novamente, rapidamente abandonou o país, "a salto", e, via Madrid, toma um avião para Dakar, no Senegal, cujo Presidente era o humanista e altamente respeitado Leopold Senghor, e, de seguida, ruma ao Brasil, desembarcando no Rio de Janeiro em Dezembro de 1963. Por aqui se queda pouco tempo, em actividade de sobrevivência, mas sempre com o pensamento de instalação duma Livraria.

Com a construção da nova capital - Brasília - em franca e acelerada progressão para lá ruma como destino definitivo. E aqui desenvolve a sua fulgurante carreira como Editor fundando a EDITORA THESAURUS a qual, entre milhares de livros saídos da sua gráfica, escritos por diversos e inúmeros renomados autores, entendeu, em boa hora, com a colaboração de escritores que anuíram pro bono ao projecto, lançar o chamado LIVRO NA RUA, publicando centenas de milhares de livrinhos de temática variada e de distribuição gratuita.  

Todavia, apesar de se chamar Alegria, a sua permanência em terras brasileiras nem tudo correu com alegria. 

Imigrado que estava há cerca de 4 meses teve o azar de eclodir um Golpe de Estado no país que o acolheu, na sequência do qual muita gente foi presa, torturada e até assassinada, muitos cidadãos desaparecidos, como é do conhecimento público.

Por ter editado um Livro de Memórias de Che Guevara (anotado), Victor Alegria foi também preso pelos militares, levado para a Ilha das Cobras, no Rio de Janeiro, e é-lhe dito que iria para a cela onde, muitos anos antes, teria estado Tiradentes, figura incontornável no Brasil, por envolvimento na Inconfidência Mineira. Victor é espancado nessa ilha e posteriormente reenviado para Brasília onde foi solto.

Decorridos, entretanto, cerca de 10 anos  após essa prisão, eclode em Portugal um Golpe de Estado em 25 de Abril de 1974, seguido de Revolução, em resultado do qual grupos de Oficiais das Forças Armadas Portuguesas começaram a deslocar-se pela diáspora no sentido de sensibilizar os cidadãos exilados por razões políticas a regressar a Portugal. Obviamente, pelas sementes já lançadas em terras de Vera Cruz, Victor não reunia essas condições, mas ficou combinado que, atendendo a que ele, Victor, e o local, Editora Thesaurus, eram elementos de aglutinação dessa diáspora em Brasília, o M.F.A. - Movimento das Forças Armadas, passaria a remeter-lhe, para distribuição pelos concidadãos, da literatura e subsídios produzidos em Portugal no âmbito da dinâmica evolutiva. Aproveitam-se, então, as Forças Armadas Brasileiras para o prender de novo, com o falso argumento de que ele, Victor, estaria a procurar induzir ideologicamente militares brasileiros. Presente a um "Tribunal" Militar, designado por I.P.M., é absolvido, mas ... dizem-lhe para sair por determinada porta. Logo que a transpõe é imediatamente preso por "uns tipos encapuzados que emergem por detrás dumas árvores". Levado para um Quartel em Goiânia, é selvaticamente torturado, incluindo simulações de afogamento num balde cheio de água e esterqueira, pendurado pelos pés. Para o afectar psicologicamente é-lhe dito que não sairá dali vivo. Ele questionava-se o porquê da prisão pois nunca esteve envolvido em actividades políticas no Brasil? Uma senhora, rádio-amadora, colocou no ar a notícia da prisão de Victor, figura sobejamente conhecida nos meios intelectuais brasilienses. Essa importantíssima informação foi captada por um rádio-amador em Arouca, terra-natal de Victor Alegria e cuja família é perfeitamente identificável no burgo. Transmitida a mensagem ao pai, o Sr. Alegria Lobo dirige-se imediatamente às autoridades portugueses em Lisboa que, por sua vez, se articulam de seguida com as brasileiras, entenda-se, com os militares. Victor iria desaparecer - o "Tribunal" mandara-o soltar, logo, não constaria oficialmente como detido -, como aconteceu com muitos outros cidadãos, mas esta preciosa notícia, que foi determinante, fez abortar essa eventual intenção. Somente é solto quando o regime começa a abrandar a sua dureza com a subida à Presidência da República do General Geisel.

        




Almoço em Arouca organizado por Céu Alegria


Pilar del Rio entre Victor Alegria e seu filho Victor Tagore



Victor como o Professor Arnaldo Saraiva, seu velho amigo


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TRAJECTO DE VIDA
Convento de Arouca
    À época, os Correios funcionavam dentro do Convento. D. Maria da Luz, funcionária
   dos CTT, com alegria, e fazendo jus ao nome, deu à luz o rebento dentro do Convento



Morador na Meninice: Rua de S. Victor (Porto)
Coincidência toponímica - Praça da Alegria cruza-se com a Rua de S. Victor



Bairro de S. Roque da Lameira: Adolescência e Juventude
José Fonseca. VICTOR ALEGRIA, António Januário, Arlindo Mota e Manuel Ribeiro



Rio de Janeiro: chegada para exílio


Brasília: destino final para permanente vivência




AGRACIAÇÃO PELO GOVERNO DO DISTRITO FEDERAL
 
         Nota: Victor Alegria é o único cidadão não brasileiro aqui agraciado e
         concomitantemente considerado cofundador da nova capital - Brasília

quinta-feira, 4 de junho de 2026

NUM ÁTIMO, Maristela Rosal Rosal




A vida é feita de fio.
Hoje brigamos por orgulho. Amanhã imploramos por saúde.
Num segundo o jogo vira.
Por isso eu escolho celebrar:
A vida que ainda pulsa.
A saúde que a gente só valoriza quando falta.
A humildade de saber que não controlamos nada.
A fé, porque é a fé que nos mantém quando o chão some.
Que a gente brigue menos. Abrace mais.
Perdoe rápido. Agradeça todo dia.
No fim, só fica o amor que demos e a fé que nos manteve de pé.
Muita luz pra vocês.

Réplica:
Estava à janela, a Vida passou e não dei por ela.
A vida é fugaz, anda rápida para a frente, jamais volta para trás.
Nascemos nus mas partimos vestidos: ganhámos algo.
É uma viagem com muitos sobressaltos, desde a partida até à chegada, portanto, aproveitemos bem os intervalos de afrouxamento para observar a Natureza, ombrear com amizade, amar e receber reciprocidade, cheirar as flores, contemplar o Mar, mirar o Sol, o resplandecer da Lua, deitar no chão térreo e mirar os astros. Enfim, VIVER no intervalo do Tempo que nos é oferecido entre a data da Parteira e da Partida Sem Regresso.
E é assim em toda a Terra: desde Vladivostok a Finisterra, do Nepal a Portugal, da Austrália a Itália, do Japão ao Butão, do Peru a Catmandu, de Diamantina a Teresina, do Chuí ao Piauí, do cimo dum mastro até ao chão de Cristino Castro ...
Carlos Jorge Mota





quarta-feira, 3 de junho de 2026

SONETOS (II)

I - Soneto da Sé e do Casamento Real

Na Sé erguida em pedra secular,

Soaram sinos sobre o Douro antigo;

Ali se uniu, perante altar e altar,

O Reino à inglesa fé, firme abrigo.


João, Mestre e Rei, de espada a fulgurar,

Tomou Filipa em laço alto e digno;

E o Porto viu, sem nunca se curvar,

Nascer futuro em gesto tão benigno.


Não foi só boda . ... foi destino erguido,

Foi pacto escrito em sangue e lealdade,

Foi Avis a florir na noite escura.


E o burgo, humilde, eterno e destemido,

Guardou na pedra essa solenidade

Como quem guarda a própria Alma pura.


II - Soneto do Infante e da ArmadaNa cinza fria de quaresma austera

Nasceu Henrique à beira do rio;

Trazia nos olhos chama marinheira

E no pensar vastidão e desafio.


Volta homem feito, e a cidade espera,

Em Miragaia vibra o estaleiro;

Martelo e serra cantam primavera

Naus que hão de rasgar o mundo inteiro.


Parte a armada rumo a nova história,

Ceuta ergue-se em poeira e claridade,

Começa o mar a ser caminho aberto.


E o Porto escreve, em tábuas de memória,

Que deu madeira, braço e lealdade

Ao sonho azul de um horizonte incerto.


III -Soneto dos Tripeiros

Deu carne boa às naus da ousadia,

Ficou com tripas, lume e paciência;

Fez do sacrifício iguaria

E da pobreza ergueu sobrevivência.


Tripeiro é título, não ironia,

É honra feita de resistência;

É dar primeiro ao mundo a primazia

E só depois cuidar da própria essência.


Ó Porto, és mesa posta sem medida,

És casa aberta mesmo na tormenta,

És mão estendida ao forasteiro.


Quem te conhece sabe que em ti habita

A arte de bem receber, que sustenta

A nobreza maior do povo inteiro.


Assim vos relato, não como quem lê arquivos, mas como quem os escuta. Porque a História do Porto não está morta. Caminha connosco. E cada vez que recebemos alguém com verdade e mesa farta . ... mesmo que seja só pão e tripas . ... estamos a continuar a crónica iniciada há mais de seis séculos.

 

CRÓNICA (II) - PORTO HISTÓRICO E MEDIEVAL / LOMBA SÍTIO DA'RTES E HISTÓRIAS E O MÍTICO

Porto Histórico e Medieval     -      Lomba Sitio d'Artes e Histórias e o mítico

Há cidades que se explicam em estatísticas. Outras explicam-se em silêncio, quando o coração aperta ao ouvir o nome. O Porto nunca coube em números ... sempre coube em peito aberto.

Falo-vos como o "Trovador da Lomba" ...  filósofo campesino por vocação, historiador por teimosia, aprendiz de poesia por necessidade da Alma, fundador da Associação Cultural, Social e Artística Porto Histórico e Medieval por Amor às pedras antigas que ainda sabem falar. Vivi quarenta anos entre corredores e decisões na Câmara Municipal do Porto. Senti o pulsar da cidade por dentro: os dossiês e as festas, as obras e as romarias, as zangas e os abraços. Aprendi que governar o Porto é como tentar domar o…

Falo-vos como fundador da Associação Cultural, Social e Artística Porto Histórico e Medieval, como amante das crónicas antigas, e como repórter da História . ... não da que se inventa, mas da que se sente nas pedras gastas e no eco das ruas.

Subo à Sé do Porto numa manhã fria de fevereiro. O ano é 1397. As muralhas guardam ainda o cheiro da pólvora recente das guerras da independência. Portugal respira fundo depois de Aljubarrota. E eis que, diante dos meus olhos de cronista invisível, entra na catedral o Rei — João I de Portugal — para desposar a inglesa de porte firme e olhar sereno, Filipa de Lencastre.

Não é apenas um casamento. É uma aliança que sela o futuro. É o reforço do tratado com Inglaterra. É o nascimento simbólico de uma dinastia que ficará para sempre ligada ao Porto. A dinastia de Avis.

Vejo, entre os presentes, o vulto austero do amigo leal, o Condestável — Nuno Álvares Pereira. Homem de espada e de oração. Guerreiro e místico. Ele supervisiona os preparativos do grande banquete nas hortas do bispo, terrenos férteis onde mais tarde surgirá a mítica Rua das Flores. Ali, onde hoje ecoam passos apressados e vozes de turistas, houve mesas fartas, vinho generoso e pão repartido.

Desço a encosta, atravesso mentalmente as ruelas medievais, e detenho-me junto à antiga Alfândega Régia do Porto. É quarta-feira de cinzas, 4 de março de 1394. Nasce um menino. Chamam-lhe Henrique o Navegador. O infante que um dia há de sonhar mares nunca dantes navegados.

Vinte e um anos depois, volto a vê-lo regressar ao Porto. Já não é apenas príncipe: é estratega. É aqui, nas praias e estaleiros de Miragaia, que se constrói metade da armada que partirá à conquista de Ceuta, em 1415. O Porto dá madeira, dá ferro, dá homens — e dá carne.

Sim, carne.

Porque enquanto as naus se preparam, o povo da cidade entrega às tripulações toda a carne boa disponível. Ficam para si apenas as tripas. E com elas inventam sustento. E com o sustento inventam identidade. Assim nasce a lenda dos Tripeiros . ... não como alcunha de escárnio, mas como medalha de honra. Dar o melhor aos outros. Ficar com o resto. E ainda assim, sorrir.

Eu, repórter da História, vejo tudo isto como se estivesse ali. Vejo o casamento que consolidou a independência. Vejo o nascimento que acendeu o mar. Vejo os estaleiros onde o sonho tomou forma de caravela. Vejo o povo anónimo que, sem brasões, fez possível a gesta marítima.

O Porto não foi apenas cenário. Foi ventre e foi braço. Foi altar e foi estaleiro. Foi berço e foi despensa.

E é por isso que, quando hoje falamos da arte de bem receber, não falamos de cortesia superficial. Falamos de uma tradição que remonta às hortas do bispo, às mesas fartas do banquete real, às cozinhas onde se temperaram tripas com dignidade. Receber bem é dar o melhor, mesmo que isso implique sacrifício.

Ao povo do Porto, deixo três sonetos heroicos, como selo de honra. 

I - ESTOU MOBILIZADO PARA ANGOLA

Em princípios de outubro de 1968, acabada a Especialidade de Serviço de Administração Militar, na Póvoa de Varzim, sai em Ordem de Serviço a minha Mobilização, feita pelo R.I. 2 (Regimento de Infantaria 2, em Abrantes), integrado na Companhia de Caçadores 2506 pertencente ao Batalhão de Caçadores 2872, em formação naquela Unidade. Fiquei logo a ela adstrito, todavia, como a minha presença era dispensável no período da Recruta e Formação do Pessoal do Batalhão a constituir, face à especificidade da minha Especialidade, recebi Guia de Marcha, em Regime de Diligência, para o R.A.L. 5 (Regimento de Artilharia Ligeira 5), em Penafiel, em cujo Conselho Administrativo comecei a desempenhar funções e cujo Chefe era o meu amigo de infância Francisco Santos, já licenciado entretanto em Economia. Lá apresentado, e com outros camaradas também recém-chegados, logo surge o Furriel Miliciano Pequito a convocar-nos para uns crosses e Aplicação Militar. Corremos 8 Kms, bem suados, e, em fato de ginástica, em plena praça frente ao Quartel, gramámos ali uns 50 minutos no duro. Viemos a perceber depois que se tratava de uma praxe de que ele fora encarregado. Homem sempre bem disposto, contador de piadas consecutivas. Mais tarde, com um mês de África, venho a saber que ele faleceu num brutal acidente de automóvel quando se dirigia para a Escola Prática de Artilharia, em Vendas Novas, onde entretanto fora recolocado para dar Instrução.

Não me recordo do nome do Comandante à altura do RAL 5, mas lembro-me que o 2º Comandante era o então Major Rolando Tomás Ferreira, que veio a ser Adjunto do meu Comandante de Companhia lá, Capitão Eurico Corvacho, aquando do 25 de Abril, no momento em que ele, graduado em Oficial General, era o responsável, nesse período, pela Região Militar Norte, e era também membro do Conselho da Revolução.
O meu serviço era de natureza administrativa, leve, portanto, mas estava submetido à escala de Serviço à Unidade, como os demais Graduados. Entretanto, na minha perna esquerda surgem uns papilomas (verrugas) cujo diagnóstico foi logo feito, por análise laboratorial: “moluscum contagiosum”. Nada de importante, mas o nome mete respeito. Um deles emergiu no tornozelo, o que me dificultava calçar a bota. Mas, como negligenciei durante algum tempo, ele inflamou e formou-se uma ferida completamente redonda, que ulcerou. Como se aproximava o dia em que, por Escala, entraria de Serviço, fui ao Médico da Unidade para atestar a situação e me poder isentar dele, porquanto, por razões regulamentares, estava impedido de fazer o serviço de sapatos. A sua reação foi estranha, chocante, até: “essa ferida não vai fechar mais. Tem que ir já para o Hospital Militar”. Entro em “parafuso”. E vejo-me, de repente, metido numa Ambulância Militar rumo ao Hospital Militar Regional nº 1, no Porto.

   

Com o França, meu conterrâneo, que                                                               R.A.L. 5, hoje ocupado pela GNR
viria a ser colega, mas no BBI, falecido
muito novo, de ataque cardíaco 

     
Tratamento à base de pomadas várias, mas “aquela treta” não cicatrizava mesmo. Passaram 15 dias e melhoras … nenhumas. Até que me aplicaram uma nova, milagrosa, de seu nome Halibut, e logo tudo se recompôs.
Minha irmã tinha acabado de ser mãe e queria-me como padrinho da filha, Delfina Alexandra (Xana), nome já registado. E como, se eu me encontro internado? Não estando ainda curado mas já em vias disso, aproveitou-se então uma coincidência proveitosa: uma amiga e ex-vizinha de mocidade, de seu nome Fernanda Matos, a conhecida Teresinha do filme Aniki-Bóbó, primeira obra do grande Manoel de Oliveira, trabalhava, como Enfermeira, num Posto de Previdência onde também exercia funções clínicas o médico que acompanhava o meu problema no H.M., embora ele fosse civil. Falou-se-lhe na questão e ele logo resolveu: deu-me alta e entrei em regime de convalescença, em casa, por uns dias, onde continuei o tratamento, mas já estava praticamente curado.
Apresento-me de novo na Unidade e retomo as funções já previamente definidas. Meu último Natal antes do embarque e, para azar dos azares, calha-me, por escala, Serviço de 24 para 25 de dezembro. Não consegui troca com ninguém. Talvez se estivesse presente alguém das Ilhas Adjacentes tivesse conseguido esse desiderato … E a rotina manteve-se até à noite de 27 para 28 de fevereiro de 1969. Tendo acabado de Fazer a Ronda, inclusive ao paiol que ficava no exterior do Quartel, precisamente às 02:40 da madrugada, abaixo-me para me sentar na cama para descansar um pouco, fardado e calçado, obviamente, e começo a ouvir um silvo horripilante, provindo de debaixo da terra, a aumentar brutalmente de intensidade, parecendo milhões de comboios. Lembrei-me logo do filme A Rua de Delfim Verde, onde era tipificado um Tremor-de-Terra. Não cheguei a sentar-me, levantei-me de supetão. Fiquei calmo, para minha surpresa, quando tudo começou a estremecer. E, para meu espanto, dos camaradas que estavam a dormir, só um acordou. A população da cidade veio para a Rua, apavorada, algumas senhoras aos gritos. Conforme o silvo soou na aproximação, atingindo o seu clímax sob os nossos pés, foi exatamente o mesmo som no afastamento, mas agora baixando lentamente, até desaparecer.                                            
                                                             
                                         
Carlos Jorge Mota

FILHOS DE TUGA

A Saga de Jorge, do Livro editado por Carlos Jorge Mota A SAGA NO FIM DO IMPÉRIO, embora ficcionada, será, porventura, um paradigma desta temática, fruto de muitas e muitas situações similares ocorridas num período de cerca de catorze anos, em Angola, Moçambique e, residualmente, na Guiné, face à guerra então em curso. Todavia, em Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Timor e Macau, à semelhança do que sucedera já durante a existência do Estado Português da Índia, e, inclusive, em séculos anteriores, no próprio território ultramarino do Brasil, os casos terão sido exponenciais.

O mesmo fenómeno ocorreu com cidadãos de outros países europeus deslocados em missão de soberania nos seus territórios ultramarinos, como Bélgica, Espanha, Alemanha, Grã-Bretanha e Holanda. Com a França a situação foi ainda mais intensa porquanto se viu envolvida em duas guerras de luta pela independência de seus territórios ultramarinos: Vietnam e Argélia.

O autor teve conhecimento de casos concretos, inclusive com Camaradas com quem privou. Alguns casaram em África logo que findo o Serviço Militar e só trouxeram a esposa à então Metrópole, para conhecimento da família, muito tempo depois, bastantes deles já acompanhados de filhos. Outros limitaram-se a anunciar o não regresso e por lá ficaram, organizando as suas vidas.

Passou há pouco tempo uma Série na RTP, em três episódios, intitulada FILHOS DE TUGA. A primeira referente à Guiné, a outra a Moçambique e a última a Angola. Reporta-se a crianças – hoje todas adultas cuja idade ronda os 50 e alguns anos – filhos de militares portugueses. Todas elas, homens e mulheres, foram ostracizados na terra onde nasceram, alguns até com risco de morte, demonstraram querer conhecer o seu pai e lamentam profundamente essa ausência. Têm consciência das circunstâncias específicas, mas a ânsia de saber do paradeiro e contactar o progenitor é muito forte. Quem não quer tocar no seu pai biológico? Nada reclamam de eventual herança, apenas querem abraçar o progenitor ou saber se já faleceu. Exigem, sim, serem considerados cidadãos portugueses. E com razão, pois vieram ao mundo em terra então portuguesa e são filhos de português. Alguns deslocaram-se a Portugal. Uns foram muito bem recebidos por familiares – sim, são familiares de sangue –, mas outros foram repelidos, com pedido de não incomodarem. O autor assistiu na televisão situações pungentes, com visita à campa do pai já falecido. Aconteceu isso em todas as guerras, em todas as latitudes, havendo homens deslocados. E, para surpresa do autor, foi sabedor de que um rapaz veio de Moçambique para conhecer o seu pai, que diz ser fulano, amigo de infância do autor, já falecido. Deslocou-se ao Cemitério e colocou um ramo de flores no túmulo. Afirmou nada reclamar, apenas quis fechar um ciclo. Está bem de vida, o que tranquiliza a família que entretanto conheceu. Não foi incluído no episódio televisivo reportado a Moçambique, pois, nele, só apareceram mulheres.

Carlos Jorge Mota

SONETOS (I)

Soneto

Já não procuro o som dos teus passos 

Nas ruas onde o tempo adormeceu; 

Levo-te inteira nos meus próprios traços, 

Como quem guarda um céu que não perdeu.


Foste horizonte, estrela e miragem, 

Promessa escrita além da solidão; 

E eu fiz da tua ausência uma viagem 

Que deu mais mundo ao meu pobre coração.


Por ti aprendi que há vitórias raras: 

Não são de quem conquista ou de quem prende, Mas de quem sobe às mais remotas aras.


E assim meu sonho silencioso acende 

As grandes luzes que julgávamos caras, 

E que só o zAmor impossível compreende.


Soneto II

Se algum destino rege as nossas vidas, 

Foi ele quem traçou teu nome em mim; 

Como os rios procuram, sem medidas, 

O mar que nunca alcançam por completo, enfim.


Não me revolto contra a tua distância; 

Há uma nobreza antiga em esperar. 

A própria dor, vestida de elegância, 

Aprendeu contigo a se elevar.


Sou cavaleiro de uma causa invisível, 

Sem outro reino além da fé que abraço, 

Sem outra espada além do impossível.


E sigo erguendo, passo após passo, 

A catedral de um sonho inesquecível 

Sobre as ruínas luminosas do cansaço.


Soneto III 

Quando eu partir, talvez fique no vento 

A sombra deste Amor que não morreu; 

E o Porto ouvirá meu juramento 

Nas águas onde o teu silêncio ardeu.


Talvez ninguém compreenda esta história, 

Feita de ausência, névoa e claridade; 

Mas toda a alma que alcançou a glória 

Passou primeiro pela saudade.


Pois não te Amei como se Ama uma fortuna, 

Nem como quem deseja possuir. 

Amei-te como se Ama a própria lua:


Distante luz que ensina a prosseguir. 

E foi por ti que a noite se fez una 

Com a eterna coragem de existir. 

CRÓNICA I   -    MEIA CRÓNICA COM SUSPIROS D'AMOR

 Do Porto com Amor e até talvez Ternura

No Porto aprendi a linguagem dos suspiros.

Foi numa tarde de névoa dourada, quando o Douro parecia guardar segredos antigos entre as margens, que o teu nome entrou em mim como entra a luz pelas janelas das igrejas: sem ruído, mas para ficar.

Desde então, caminho por estas ruas de pedra como quem atravessa um sonho. As varandas floridas inclinam-se sobre o tempo, os sinos dissolvem-se no ar, e cada esquina parece conservar a sombra delicada de um instante onde talvez tenhas passado.

Ó Amada longínqua, tão difícil e tão próxima do meu pensamento, és como a estrela que o viajante não alcança, mas que lhe ilumina o caminho. Não te possuo, nem te peço. Basta-me saber que existes algures entre o horizonte e a esperança.

Quando a tarde desce sobre os telhados vermelhos e o rio recolhe os últimos brilhos do céu, imagino-te. Vejo-te apenas com os olhos do desejo sereno, desses desejos que não ferem porque nasceram para contemplar.

E é então que o Porto se torna mais belo.

As águas suspiram o teu nome em silêncio. O vento que sobe das pontes traz-me a ilusão da tua voz. As luzes da outra margem acendem-se como pequenas promessas que ninguém fez, mas que o coração insiste em acreditar.

Se algum dia regressares a estas ruas, talvez nada aconteça. Talvez apenas o mesmo rio continue a correr, as mesmas gaivotas risquem o crepúsculo e a cidade conserve a sua tranquila indiferença.

Mas eu saberei.

Saberei que houve um tempo em que toda a ternura do mundo se reuniu num único sonho, e que esse sonho caminhou pelo Porto com o teu rosto.

E, por isso, cada pedra desta cidade me parece mais leve, cada tarde mais doce, cada horizonte mais vasto.

Porque algumas presenças não precisam chegar para permanecer.

Basta que sejam amadas.

Como tu.

‐- --

Ode à Distância, no Porto

Porto de névoa e sinos sonolentos, de ruas velhas conversando ao vento, guarda em teus muros brandos pensamentos que o meu amor te confiou, sedento.


terça-feira, 2 de junho de 2026

SÍSIFO - O FADO ETERNO | O MITO DE SÍSIFO, DE CAMUS




Maristela Rosal Rosal
Camus pega o castigo mais inútil da mitologia e transforma em manifesto.
*1. O castigo*
Sísifo engana os deuses. Pena: empurrar uma pedra montanha acima. Quando chega no topo, a pedra rola. Ele desce e começa de novo. Pra sempre.
É o "fado eterno": repetição sem saída, sem sentido externo.
*2. A virada de Camus*
Pra Camus, a vida é assim: a gente busca sentido num universo que não dá resposta. Isso é o "absurdo".
Suicídio? Não. Fé cega? Também não.
A saída dele: *revolta lúcida*. Você sabe que a pedra vai cair. Empurra mesmo assim.
*3. "Devemos imaginar Sísifo feliz"*
A frase mais famosa. Por quê feliz?
Porque no caminho de volta, descendo a ladeira pra buscar a pedra, Sísifo é dono dele mesmo.
Não tem deus mandando. Não tem ilusão. Só consciência.
Ele aceita o absurdo e ainda assim escolhe viver. A pedra é dele. O castigo vira criação.
A felicidade nasce quando você para de exigir que a montanha te dê sentido.
*4. Ligando com sua frase da pilha de livros*
Sísifo no chão = LH baixa. Só vê a pedra.
Sísifo que "sobe na pilha de livros" = entende o jogo. Vê que a luta em si já é o sentido.
A Linha do Horizonte dele não é chegar no topo e ficar lá. É saber que enquanto desce, ele é livre pra pensar, pra desprezar os deuses, pra ser mais forte que a pedra.
*Em 1 frase*: O absurdo é a pedra rolar. A revolta é empurrar sabendo disso. A liberdade é descer rindo.
Curte Camus? Ou o reel era sobre outra leitura do mito?

Réplica de Carlos Jorge Mota
Albert Camus, pela sua produção escrita, recebeu o galardão Nobel da Literatura, todavia a sua obra, como mistura idiossincrática de filosofia que contém, revela a intrusão no labiríntico percurso do pensamento humano. No Ensaio “O Mito de Sísifo”, cria a Tese do Absurdo num contexto de Liberdade da figura mitológica grega que recebeu um castigo absurdo pelo desafio aos deuses. A Filosofia - Capacidade de Pensar - permite-nos extrapolações e correlatividades. Portanto, poderemos nós ter a ousadia de criar um simulacro de Antítese sugerindo que a Causa/Efeito poderá ser invertida? Nesta mesma definição conceptual entraria a situação do condenado a encher um barril de água numa cachoeira dum rio e transportá-lo fisicamente para o topo vertendo-o no caudal, num ciclo constante, acusado unicamente por criar narrativas públicas contrárias às do Poder dominante? - o Absurdo consequência da Liberdade. Mas, independentemente do castigo, já o escreveu o poeta português Manuel Alegre, ainda vivo: “Não há machado que corte a raiz do pensamento ... “.
Existirão, porventura, diversas concepções do Absurdo:
- um peão (pedestre), numa passadeira (faixa), a aguardar a abertura do sinal verde para a atravessar e certificando que não existem viaturas na via, mas aguarda - Absurdo Formal;
- a criança que tenta esvaziar o mar munido com o seu baldezinho de praia - Absurdo Infantil;
- a Morte versus a Vida. Os Crentes na Vida Eterna argumentam a oportunidade da aplicação do Livre Arbítrio, mas vem o filósofo e questiona: então e os nado-mortos por que foram gerados? - Absurdo Imaginário;
- a própria Guerra não deixa de se enquadrar neste pensamento, pois mais nenhuma espécie animal se guerreia, salvo se lutar por domínio territorial para
acasalamento com vista à perpetuação desse grupo, ou por fome - Absurdo Irracional;
- a colocação dum copo cheio que não entorna não obstante a velocidade da Terra incorporada num Sistema Solar a uma velocidade cósmica, por sua vez integrado numa galáxia que também gira com grupo de galáxias … - Absurdo Científico;
- e até o Absurdo Hilariante: Lembremo-nos do formato dum supositório: numa ponta é cónico, na outra é convexo. Qual é a tendência do lado a introduzir? Se for do cónico ele saltará de imediato por pressão do músculo esfíncter, no entanto é a opção errada e quase generalizada.



Tréplica de Maristela Rosal Rosal
Sim. A ousadia de inverter a seta Causa/Efeito é legítima — e camusiana até a medula. Você tocou o ponto exato: e se o Absurdo não for consequência do castigo, mas a Liberdade for consequência do Absurdo?

1. A Antítese que você desenha: o Absurdo como motor, não como sentença

No Mito de Sísifo, Camus parte assim: os deuses castigam → Sísifo empurra a pedra → surge o Absurdo → Sísifo escolhe. Sua inversão propõe: existe a Liberdade de narrar contra o Poder → o Poder impõe o barril na cachoeira → o Absurdo se instala como preço. Aqui o Absurdo deixa de ser castigo metafísico e vira tecnologia de controle. É o Estado transformando Sísifo em burocrata. Não é mais "rola a pedra porque desobedeceu". É "rola a pedra pra que nunca mais desobedeça". Esse é o Sísifo contemporâneo: o condenado não por desafiar os deuses, mas por criar narrativas. O barril furado é a timeline. A cachoeira é o ciclo de 24h de notícias. Você enche, posta, o algoritmo verte tudo rio abaixo, e às 6h da manhã recomeça. Manuel Alegre tinha razão: não há machado que corte a raiz do pensamento. Mas há algoritmo que poda a copa antes que vire floresta. 2. As tipologias que você lista são um catálogo cirúrgico do Absurdo - Absurdo Formal: O pedestre parado no sinal deserto. Kafka puro. A lei sem o risco. É a obediência que sobreviveu ao motivo. Camus chamaria de suicídio filosófico por regulamento. - Absurdo Infantil: A criança e o mar. Santo Agostinho na praia, vendo o menino. É a desproporção como método. Só que a criança não sofre — ela brinca. Talvez seja o único Sísifo feliz de verdade. - Absurdo Imaginário: Vida vs Morte. É o axioma zero. Sem ele nenhum outro absurdo funciona. Porque só morre quem vive, só pergunta pelo sentido quem vai acabar. - Absurdo Irracional: A guerra. Aqui você fura Camus por cima. Ele diz que o Absurdo nasce do confronto homem/mundo. A guerra é o confronto homem/homem travestido de mundo. Nenhum lobo declara guerra preventiva. Só o bicho que escreve tratado. - Absurdo Científico: O copo que não entorna a 107.000 km/h. É a vertigem de Pascal sem Deus pra segurar. A física garante que o copo fica, mas não explica por que você o encheu. Newton descreve, Camus pergunta. - Absurdo Hilariante: O supositório. É o corpo sabotando a razão. Beckett aplaudiria. A ponta errada é a mais intuitiva, e a fisiologia pune a intuição. Rimos porque reconhecemos: todo sistema tem uma ponta cônica que escolhemos mal. 3. Então, "devemos imaginar Sísifo feliz"? Na sua inversão, não. Devemos imaginar Sísifo lúcido. Porque o condenado da cachoeira sabe que o barril nunca vai encher o rio. Mas continua. Não por esperança — essa Camus já exilou. Continua porque carregar água é a única forma de manter a narrativa viva contra o Poder. O castigo virou manifesto. A raiz que o machado não corta é justamente essa: a capacidade de nomear o Absurdo enquanto o vive. Você listou 6 Absurdos. O ato de listar já é a revolta. É o homem dizendo "eu vejo a pedra, eu vejo a ladeira, eu vejo os deuses rindo, e ainda assim eu nomeio".
Sua Antítese fecha o círculo: a Liberdade gera o Absurdo quando o Poder decide que pensar é crime. Mas aí o Absurdo, em vez de esmagar, devolve a Liberdade. Porque só é livre quem recebeu um castigo grande o suficiente pra não caber mais no medo.


sexta-feira, 29 de maio de 2026

 NOTA

A última postagem foi a primeira aqui colocada após o tempo da Pandemia que nos assolou, porque durante esse período nada de muito relevo havia para assinalar, ressalvando algumas informações que foram repassadas no meu próprio Mural  no Facebook. 
Acresce que necessitei também dum período de nojo para tentar digerir o desaparecimento dum grande amigo - EMANUEL TADEU MEDEIROS VIEIRA - que alimentava assiduamente, com conteúdos prenhes de substrato, este Blogue.
A razão foi só essa e não qualquer eventual desinteresse pela dinâmica deste Blogue. Não retomada, no entretanto, todavia, ainda a subsequência permanente de postagens deste meio de contacto e de divulgação porque entretanto surgiu um motivo de saúde (ou falta dela) ao autor, elas irão agora ser retomadas porque foram criadas as condições mínimas para reactivação.