VICTOR José de Melo ALEGRIA Lobo, o filho mais velho da família vizinha da casa de Carlos Jorge Mota, emigrado em Dezembro de 1963 para o Brasil por motivo de força maior, detentor em Brasília duma Editora conhecida, e com o Estatuto de Comendador, quer em Portugal quer no Brasil quer ainda na Roménia, decidiu iniciar periodicamente uma viagem a Portugal com intelectuais brasileiros da sua área de amizade e conhecimento, a que atribuiu a designação de Caravana de VIAGEM ÀS NASCENTES DA LÍNGUA PORTUGUESA, em articulação com o autor deste blogue, para efeito de apoio para realização de eventos e a logística inerente, inclusive aluguer de autocarros com motorista, para a itinerância, elaboração de eventos culturais, gastronómicos, de circuitos, visitas-guiadas por amigos seus e conhecedores da zona respectiva descrevendo o seu enquadramento histórico-cultural, idas à Galiza, após contacto com amizades galegas de longa data que facilitaram lá os necessários circuitos, incluindo presenças na A.G.L.P. – Academia Galega da Língua Portuguesa.
Os sucessos foram de tal magnitude que, sucessivamente, estas Excursões se mantiveram e de cuja recordação alguns brasileiros escreveram livros e subsídios para manter viva uma chama que consideram importante, quer pelo que aprenderam in loco quer pelas oportunidades de relação de amizade que foi possível estabelecer.
Entre os dias 2 e 10 deste mês de Junho de 2026 ocorreu mais uma destas Caravanas, a 15ª, desta vez sem a habitual interacção de Carlos Jorge Mota, por razões de impossibilidade pessoal deste, cuja actividade foi diversificada por várias localidades e eventos impactantes: Lisboa, com visita à Sala dos Bicos, cuja cicerone foi Pilar del Rio, viúva de Saramago, encontro com o Embaixador brasileiro Lauro Moreira, deslocação à Embaixada do Brasil, Feira do Livro Sazonal, Academia do Bacalhau - onde se degustou o tradicional prato-típico português; Óbidos, com visita programada e orientada à Biblioteca Municipal; Coimbra em cuja Universidade foi cicerone o Professor Ibsen Noronha; Figueira da Foz, com deslocação à Biblioteca Municipal, igualmente com oferta de livros pelo grupo visitante; Porto, envolvendo Almoço no Restaurante Bibó Porto, seguido de Palestra/Convívio e Apresentação de Livros na Cooperativa Livreira UNICEPE; Ida a Arouca (terra-natal de Victor Alegria) em cuja Biblioteca Municipal houve troca de impressões sobre Cultura e entrega de livros. Na cidade do Porto, houve ainda oportunidade duma visita a um Lar-de-Acolhimento de Idosos durante a qual foi possibilitado trocar palavras muito amistosas com os convivas donde emergiu uma simpatia esfuziante recíproca.
Mas, tudo na Vida tem um princípio ...
Victor Alegria, funcionário bancário em Portugal, actividade cujo horário de entrada dos funcionários era, à época, às 10:00, tomou a iniciativa, fruto do seu gosto intrínseco pela Cultura, na qual se insere o mister livreiro, de alugar um espaço num 7º andar no centro da cidade. O sucesso foi de tal magnitude que se aproveitou o momento de vacatura duma loja no topo superior direito da Rua de Ceuta para, conjuntamente com outros interessados - o custo da renda era de valor considerável -, ali se instalar a Livraria Divulgação. Atendendo a que todos os agora sócios detinham as sua próprias profissões foi convidado, e aceitou, um empregado duma livraria de grande renome em pleno centro, conhecedor do mister e que passou a ser a figura conhecida perante o público em geral, face à sua presença permanente no balcão.
Entretanto, Victor, para além da atracção livreira não estava acomodado com a situação política do Portugal de então razão por que optou por ser elemento activo do MUD-Juvenil (Movimento de Unidade Democrática), entidade hostil à Política do Regime. Nessa qualidade é preso e remetido para as masmorras da PIDE, Polícia Política, na Rua do Heroísmo, no Porto. Decorrido um ano em sessões sucessivas de julgamento no Tribunal Plenário (Tribunais específicos para "crimes" políticos) é pronunciada a sentença: Absolvição. Todavia, era normal a PIDE, nestas situações, continuar a controlar a vida do cidadão, inclusive a pessoal. Percepcionando, com alguma ajuda do "espírito santo de orelha", que iria ser preso novamente, rapidamente abandonou o país, "a salto", e, via Madrid, toma um avião para Dakar, no Senegal, cujo Presidente era o humanista e altamente respeitado Leopold Senghor, e, de seguida, ruma ao Brasil, desembarcando no Rio de Janeiro em Dezembro de 1963. Por aqui se queda pouco tempo, em actividade de sobrevivência, mas sempre com o pensamento de instalação duma Livraria.
Com a construção da nova capital - Brasília - em franca e acelerada progressão para lá ruma como destino definitivo. E aqui desenvolve a sua fulgurante carreira como Editor fundando a EDITORA THESAURUS a qual, entre milhares de livros saídos da sua gráfica, escritos por diversos e inúmeros renomados autores, entendeu, em boa hora, com a colaboração de escritores que anuíram pro bono ao projecto, lançar o chamado LIVRO NA RUA, publicando centenas de milhares de livrinhos de temática variada e de distribuição gratuita.
Todavia, apesar de se chamar Alegria, a sua permanência em terras brasileiras nem tudo correu com alegria.
Imigrado que estava há cerca de 4 meses teve o azar de eclodir um Golpe de Estado no país que o acolheu, na sequência do qual muita gente foi presa, torturada e até assassinada, muitos cidadãos desaparecidos, como é do conhecimento público.
Por ter editado um Livro de Memórias de Che Guevara (anotado), Victor Alegria foi também preso pelos militares, levado para a Ilha das Cobras, no Rio de Janeiro, e é-lhe dito que iria para a cela onde, muitos anos antes, teria estado Tiradentes, figura incontornável no Brasil, por envolvimento na Inconfidência Mineira. Victor é espancado nessa ilha e posteriormente reenviado para Brasília onde foi solto.
Decorridos, entretanto, cerca de 10 anos após essa prisão, eclode em Portugal um Golpe de Estado em 25 de Abril de 1974, seguido de Revolução, em resultado do qual grupos de Oficiais das Forças Armadas Portuguesas começaram a deslocar-se pela diáspora no sentido de sensibilizar os cidadãos exilados por razões políticas a regressar a Portugal. Obviamente, pelas sementes já lançadas em terras de Vera Cruz, Victor não reunia essas condições, mas ficou combinado que, atendendo a que ele, Victor, e o local, Editora Thesaurus, eram elementos de aglutinação dessa diáspora em Brasília, o M.F.A. - Movimento das Forças Armadas, passaria a remeter-lhe, para distribuição pelos concidadãos, da literatura e subsídios produzidos em Portugal no âmbito da dinâmica evolutiva. Aproveitam-se, então, as Forças Armadas Brasileiras para o prender de novo, com o falso argumento de que ele, Victor, estaria a procurar induzir ideologicamente militares brasileiros. Presente a um "Tribunal" Militar, designado por I.P.M., é absolvido, mas ... dizem-lhe para sair por determinada porta. Logo que a transpõe é imediatamente preso por "uns tipos encapuzados que emergem por detrás dumas árvores". Levado para um Quartel em Goiânia, é selvaticamente torturado, incluindo simulações de afogamento num balde cheio de água e esterqueira, pendurado pelos pés. Para o afectar psicologicamente é-lhe dito que não sairá dali vivo. Ele questionava-se o porquê da prisão pois nunca esteve envolvido em actividades políticas no Brasil? Uma senhora, rádio-amadora, colocou no ar a notícia da prisão de Victor, figura sobejamente conhecida nos meios intelectuais brasilienses. Essa importantíssima informação foi captada por um rádio-amador em Arouca, terra-natal de Victor Alegria e cuja família é perfeitamente identificável no burgo. Transmitida a mensagem ao pai, o Sr. Alegria Lobo dirige-se imediatamente às autoridades portugueses em Lisboa que, por sua vez, se articulam de seguida com as brasileiras, entenda-se, com os militares. Victor iria desaparecer - o "Tribunal" mandara-o soltar, logo, não constaria oficialmente como detido -, como aconteceu com muitos outros cidadãos, mas esta preciosa notícia, que foi determinante, fez abortar essa eventual intenção. Somente é solto quando o regime começa a abrandar a sua dureza com a subida à Presidência da República do General Geisel.
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