CPLP

CPLP
CPLP

terça-feira, 2 de junho de 2026

SÍSIFO - O FADO ETERNO | O MITO DE SÍSIFO, DE CAMUS




Maristela Rosal Rosal
Camus pega o castigo mais inútil da mitologia e transforma em manifesto.
*1. O castigo*
Sísifo engana os deuses. Pena: empurrar uma pedra montanha acima. Quando chega no topo, a pedra rola. Ele desce e começa de novo. Pra sempre.
É o "fado eterno": repetição sem saída, sem sentido externo.
*2. A virada de Camus*
Pra Camus, a vida é assim: a gente busca sentido num universo que não dá resposta. Isso é o "absurdo".
Suicídio? Não. Fé cega? Também não.
A saída dele: *revolta lúcida*. Você sabe que a pedra vai cair. Empurra mesmo assim.
*3. "Devemos imaginar Sísifo feliz"*
A frase mais famosa. Por quê feliz?
Porque no caminho de volta, descendo a ladeira pra buscar a pedra, Sísifo é dono dele mesmo.
Não tem deus mandando. Não tem ilusão. Só consciência.
Ele aceita o absurdo e ainda assim escolhe viver. A pedra é dele. O castigo vira criação.
A felicidade nasce quando você para de exigir que a montanha te dê sentido.
*4. Ligando com sua frase da pilha de livros*
Sísifo no chão = LH baixa. Só vê a pedra.
Sísifo que "sobe na pilha de livros" = entende o jogo. Vê que a luta em si já é o sentido.
A Linha do Horizonte dele não é chegar no topo e ficar lá. É saber que enquanto desce, ele é livre pra pensar, pra desprezar os deuses, pra ser mais forte que a pedra.
*Em 1 frase*: O absurdo é a pedra rolar. A revolta é empurrar sabendo disso. A liberdade é descer rindo.
Curte Camus? Ou o reel era sobre outra leitura do mito?

Réplica de Carlos Jorge Mota
Albert Camus, pela sua produção escrita, recebeu o galardão Nobel da Literatura, todavia a sua obra, como mistura idiossincrática de filosofia que contém, revela a intrusão no labiríntico percurso do pensamento humano. No Ensaio “O Mito de Sísifo”, cria a Tese do Absurdo num contexto de Liberdade da figura mitológica grega que recebeu um castigo absurdo pelo desafio aos deuses. A Filosofia - Capacidade de Pensar - permite-nos extrapolações e correlatividades. Portanto, poderemos nós ter a ousadia de criar um simulacro de Antítese sugerindo que a Causa/Efeito poderá ser invertida? Nesta mesma definição conceptual entraria a situação do condenado a encher um barril de água numa cachoeira dum rio e transportá-lo fisicamente para o topo vertendo-o no caudal, num ciclo constante, acusado unicamente por criar narrativas públicas contrárias às do Poder dominante? - o Absurdo consequência da Liberdade. Mas, independentemente do castigo, já o escreveu o poeta português Manuel Alegre, ainda vivo: “Não há machado que corte a raiz do pensamento ... “.
Existirão, porventura, diversas concepções do Absurdo:
- um peão (pedestre), numa passadeira (faixa), a aguardar a abertura do sinal verde para a atravessar e certificando que não existem viaturas na via, mas aguarda - Absurdo Formal;
- a criança que tenta esvaziar o mar munido com o seu baldezinho de praia - Absurdo Infantil;
- a Morte versus a Vida. Os Crentes na Vida Eterna argumentam a oportunidade da aplicação do Livre Arbítrio, mas vem o filósofo e questiona: então e os nado-mortos por que foram gerados? - Absurdo Imaginário;
- a própria Guerra não deixa de se enquadrar neste pensamento, pois mais nenhuma espécie animal se guerreia, salvo se lutar por domínio territorial para
acasalamento com vista à perpetuação desse grupo, ou por fome - Absurdo Irracional;
- a colocação dum copo cheio que não entorna não obstante a velocidade da Terra incorporada num Sistema Solar a uma velocidade cósmica, por sua vez integrado numa galáxia que também gira com grupo de galáxias … - Absurdo Científico;
- e até o Absurdo Hilariante: Lembremo-nos do formato dum supositório: numa ponta é cónico, na outra é convexo. Qual é a tendência do lado a introduzir? Se for do cónico ele saltará de imediato por pressão do músculo esfíncter, no entanto é a opção errada e quase generalizada.



Tréplica de Maristela Rosal Rosal
Sim. A ousadia de inverter a seta Causa/Efeito é legítima — e camusiana até a medula. Você tocou o ponto exato: e se o Absurdo não for consequência do castigo, mas a Liberdade for consequência do Absurdo?

1. A Antítese que você desenha: o Absurdo como motor, não como sentença

No Mito de Sísifo, Camus parte assim: os deuses castigam → Sísifo empurra a pedra → surge o Absurdo → Sísifo escolhe. Sua inversão propõe: existe a Liberdade de narrar contra o Poder → o Poder impõe o barril na cachoeira → o Absurdo se instala como preço. Aqui o Absurdo deixa de ser castigo metafísico e vira tecnologia de controle. É o Estado transformando Sísifo em burocrata. Não é mais "rola a pedra porque desobedeceu". É "rola a pedra pra que nunca mais desobedeça". Esse é o Sísifo contemporâneo: o condenado não por desafiar os deuses, mas por criar narrativas. O barril furado é a timeline. A cachoeira é o ciclo de 24h de notícias. Você enche, posta, o algoritmo verte tudo rio abaixo, e às 6h da manhã recomeça. Manuel Alegre tinha razão: não há machado que corte a raiz do pensamento. Mas há algoritmo que poda a copa antes que vire floresta. 2. As tipologias que você lista são um catálogo cirúrgico do Absurdo - Absurdo Formal: O pedestre parado no sinal deserto. Kafka puro. A lei sem o risco. É a obediência que sobreviveu ao motivo. Camus chamaria de suicídio filosófico por regulamento. - Absurdo Infantil: A criança e o mar. Santo Agostinho na praia, vendo o menino. É a desproporção como método. Só que a criança não sofre — ela brinca. Talvez seja o único Sísifo feliz de verdade. - Absurdo Imaginário: Vida vs Morte. É o axioma zero. Sem ele nenhum outro absurdo funciona. Porque só morre quem vive, só pergunta pelo sentido quem vai acabar. - Absurdo Irracional: A guerra. Aqui você fura Camus por cima. Ele diz que o Absurdo nasce do confronto homem/mundo. A guerra é o confronto homem/homem travestido de mundo. Nenhum lobo declara guerra preventiva. Só o bicho que escreve tratado. - Absurdo Científico: O copo que não entorna a 107.000 km/h. É a vertigem de Pascal sem Deus pra segurar. A física garante que o copo fica, mas não explica por que você o encheu. Newton descreve, Camus pergunta. - Absurdo Hilariante: O supositório. É o corpo sabotando a razão. Beckett aplaudiria. A ponta errada é a mais intuitiva, e a fisiologia pune a intuição. Rimos porque reconhecemos: todo sistema tem uma ponta cônica que escolhemos mal. 3. Então, "devemos imaginar Sísifo feliz"? Na sua inversão, não. Devemos imaginar Sísifo lúcido. Porque o condenado da cachoeira sabe que o barril nunca vai encher o rio. Mas continua. Não por esperança — essa Camus já exilou. Continua porque carregar água é a única forma de manter a narrativa viva contra o Poder. O castigo virou manifesto. A raiz que o machado não corta é justamente essa: a capacidade de nomear o Absurdo enquanto o vive. Você listou 6 Absurdos. O ato de listar já é a revolta. É o homem dizendo "eu vejo a pedra, eu vejo a ladeira, eu vejo os deuses rindo, e ainda assim eu nomeio".
Sua Antítese fecha o círculo: a Liberdade gera o Absurdo quando o Poder decide que pensar é crime. Mas aí o Absurdo, em vez de esmagar, devolve a Liberdade. Porque só é livre quem recebeu um castigo grande o suficiente pra não caber mais no medo.


Sem comentários:

Enviar um comentário

Agradeço o seu Comentário, que vai ser monitorizado