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quarta-feira, 3 de junho de 2026

FILHOS DE TUGA

A Saga de Jorge, do Livro editado por Carlos Jorge Mota A SAGA NO FIM DO IMPÉRIO, embora ficcionada, será, porventura, um paradigma desta temática, fruto de muitas e muitas situações similares ocorridas num período de cerca de catorze anos, em Angola, Moçambique e, residualmente, na Guiné, face à guerra então em curso. Todavia, em Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Timor e Macau, à semelhança do que sucedera já durante a existência do Estado Português da Índia, e, inclusive, em séculos anteriores, no próprio território ultramarino do Brasil, os casos terão sido exponenciais.

O mesmo fenómeno ocorreu com cidadãos de outros países europeus deslocados em missão de soberania nos seus territórios ultramarinos, como Bélgica, Espanha, Alemanha, Grã-Bretanha e Holanda. Com a França a situação foi ainda mais intensa porquanto se viu envolvida em duas guerras de luta pela independência de seus territórios ultramarinos: Vietnam e Argélia.

O autor teve conhecimento de casos concretos, inclusive com Camaradas com quem privou. Alguns casaram em África logo que findo o Serviço Militar e só trouxeram a esposa à então Metrópole, para conhecimento da família, muito tempo depois, bastantes deles já acompanhados de filhos. Outros limitaram-se a anunciar o não regresso e por lá ficaram, organizando as suas vidas.

Passou há pouco tempo uma Série na RTP, em três episódios, intitulada FILHOS DE TUGA. A primeira referente à Guiné, a outra a Moçambique e a última a Angola. Reporta-se a crianças – hoje todas adultas cuja idade ronda os 50 e alguns anos – filhos de militares portugueses. Todas elas, homens e mulheres, foram ostracizados na terra onde nasceram, alguns até com risco de morte, demonstraram querer conhecer o seu pai e lamentam profundamente essa ausência. Têm consciência das circunstâncias específicas, mas a ânsia de saber do paradeiro e contactar o progenitor é muito forte. Quem não quer tocar no seu pai biológico? Nada reclamam de eventual herança, apenas querem abraçar o progenitor ou saber se já faleceu. Exigem, sim, serem considerados cidadãos portugueses. E com razão, pois vieram ao mundo em terra então portuguesa e são filhos de português. Alguns deslocaram-se a Portugal. Uns foram muito bem recebidos por familiares – sim, são familiares de sangue –, mas outros foram repelidos, com pedido de não incomodarem. O autor assistiu na televisão situações pungentes, com visita à campa do pai já falecido. Aconteceu isso em todas as guerras, em todas as latitudes, havendo homens deslocados. E, para surpresa do autor, foi sabedor de que um rapaz veio de Moçambique para conhecer o seu pai, que diz ser fulano, amigo de infância do autor, já falecido. Deslocou-se ao Cemitério e colocou um ramo de flores no túmulo. Afirmou nada reclamar, apenas quis fechar um ciclo. Está bem de vida, o que tranquiliza a família que entretanto conheceu. Não foi incluído no episódio televisivo reportado a Moçambique, pois, nele, só apareceram mulheres.

Carlos Jorge Mota

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