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quarta-feira, 3 de junho de 2026

CRÓNICA (II) - PORTO HISTÓRICO E MEDIEVAL / LOMBA SÍTIO DA'RTES E HISTÓRIAS E O MÍTICO

Porto Histórico e Medieval     -      Lomba Sitio d'Artes e Histórias e o mítico

Há cidades que se explicam em estatísticas. Outras explicam-se em silêncio, quando o coração aperta ao ouvir o nome. O Porto nunca coube em números ... sempre coube em peito aberto.

Falo-vos como o "Trovador da Lomba" ...  filósofo campesino por vocação, historiador por teimosia, aprendiz de poesia por necessidade da Alma, fundador da Associação Cultural, Social e Artística Porto Histórico e Medieval por Amor às pedras antigas que ainda sabem falar. Vivi quarenta anos entre corredores e decisões na Câmara Municipal do Porto. Senti o pulsar da cidade por dentro: os dossiês e as festas, as obras e as romarias, as zangas e os abraços. Aprendi que governar o Porto é como tentar domar o…

Falo-vos como fundador da Associação Cultural, Social e Artística Porto Histórico e Medieval, como amante das crónicas antigas, e como repórter da História . ... não da que se inventa, mas da que se sente nas pedras gastas e no eco das ruas.

Subo à Sé do Porto numa manhã fria de fevereiro. O ano é 1397. As muralhas guardam ainda o cheiro da pólvora recente das guerras da independência. Portugal respira fundo depois de Aljubarrota. E eis que, diante dos meus olhos de cronista invisível, entra na catedral o Rei — João I de Portugal — para desposar a inglesa de porte firme e olhar sereno, Filipa de Lencastre.

Não é apenas um casamento. É uma aliança que sela o futuro. É o reforço do tratado com Inglaterra. É o nascimento simbólico de uma dinastia que ficará para sempre ligada ao Porto. A dinastia de Avis.

Vejo, entre os presentes, o vulto austero do amigo leal, o Condestável — Nuno Álvares Pereira. Homem de espada e de oração. Guerreiro e místico. Ele supervisiona os preparativos do grande banquete nas hortas do bispo, terrenos férteis onde mais tarde surgirá a mítica Rua das Flores. Ali, onde hoje ecoam passos apressados e vozes de turistas, houve mesas fartas, vinho generoso e pão repartido.

Desço a encosta, atravesso mentalmente as ruelas medievais, e detenho-me junto à antiga Alfândega Régia do Porto. É quarta-feira de cinzas, 4 de março de 1394. Nasce um menino. Chamam-lhe Henrique o Navegador. O infante que um dia há de sonhar mares nunca dantes navegados.

Vinte e um anos depois, volto a vê-lo regressar ao Porto. Já não é apenas príncipe: é estratega. É aqui, nas praias e estaleiros de Miragaia, que se constrói metade da armada que partirá à conquista de Ceuta, em 1415. O Porto dá madeira, dá ferro, dá homens — e dá carne.

Sim, carne.

Porque enquanto as naus se preparam, o povo da cidade entrega às tripulações toda a carne boa disponível. Ficam para si apenas as tripas. E com elas inventam sustento. E com o sustento inventam identidade. Assim nasce a lenda dos Tripeiros . ... não como alcunha de escárnio, mas como medalha de honra. Dar o melhor aos outros. Ficar com o resto. E ainda assim, sorrir.

Eu, repórter da História, vejo tudo isto como se estivesse ali. Vejo o casamento que consolidou a independência. Vejo o nascimento que acendeu o mar. Vejo os estaleiros onde o sonho tomou forma de caravela. Vejo o povo anónimo que, sem brasões, fez possível a gesta marítima.

O Porto não foi apenas cenário. Foi ventre e foi braço. Foi altar e foi estaleiro. Foi berço e foi despensa.

E é por isso que, quando hoje falamos da arte de bem receber, não falamos de cortesia superficial. Falamos de uma tradição que remonta às hortas do bispo, às mesas fartas do banquete real, às cozinhas onde se temperaram tripas com dignidade. Receber bem é dar o melhor, mesmo que isso implique sacrifício.

Ao povo do Porto, deixo três sonetos heroicos, como selo de honra. 

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