I - Soneto da Sé e do Casamento Real
Na Sé erguida em pedra secular,
Soaram sinos sobre o Douro antigo;
Ali se uniu, perante altar e altar,
O Reino à inglesa fé, firme abrigo.
João, Mestre e Rei, de espada a fulgurar,
Tomou Filipa em laço alto e digno;
E o Porto viu, sem nunca se curvar,
Nascer futuro em gesto tão benigno.
Não foi só boda . ... foi destino erguido,
Foi pacto escrito em sangue e lealdade,
Foi Avis a florir na noite escura.
E o burgo, humilde, eterno e destemido,
Guardou na pedra essa solenidade
Como quem guarda a própria Alma pura.
II - Soneto do Infante e da ArmadaNa cinza fria de quaresma austera
Nasceu Henrique à beira do rio;
Trazia nos olhos chama marinheira
E no pensar vastidão e desafio.
Volta homem feito, e a cidade espera,
Em Miragaia vibra o estaleiro;
Martelo e serra cantam primavera
Naus que hão de rasgar o mundo inteiro.
Parte a armada rumo a nova história,
Ceuta ergue-se em poeira e claridade,
Começa o mar a ser caminho aberto.
E o Porto escreve, em tábuas de memória,
Que deu madeira, braço e lealdade
Ao sonho azul de um horizonte incerto.
III -Soneto dos Tripeiros
Deu carne boa às naus da ousadia,
Ficou com tripas, lume e paciência;
Fez do sacrifício iguaria
E da pobreza ergueu sobrevivência.
Tripeiro é título, não ironia,
É honra feita de resistência;
É dar primeiro ao mundo a primazia
E só depois cuidar da própria essência.
Ó Porto, és mesa posta sem medida,
És casa aberta mesmo na tormenta,
És mão estendida ao forasteiro.
Quem te conhece sabe que em ti habita
A arte de bem receber, que sustenta
A nobreza maior do povo inteiro.
Assim vos relato, não como quem lê arquivos, mas como quem os escuta. Porque a História do Porto não está morta. Caminha connosco. E cada vez que recebemos alguém com verdade e mesa farta . ... mesmo que seja só pão e tripas . ... estamos a continuar a crónica iniciada há mais de seis séculos.
Sem comentários:
Enviar um comentário
Agradeço o seu Comentário, que vai ser monitorizado