Soneto
Já não procuro o som dos teus passos
Nas ruas onde o tempo adormeceu;
Levo-te inteira nos meus próprios traços,
Como quem guarda um céu que não perdeu.
Foste horizonte, estrela e miragem,
Promessa escrita além da solidão;
E eu fiz da tua ausência uma viagem
Que deu mais mundo ao meu pobre coração.
Por ti aprendi que há vitórias raras:
Não são de quem conquista ou de quem prende, Mas de quem sobe às mais remotas aras.
E assim meu sonho silencioso acende
As grandes luzes que julgávamos caras,
E que só o zAmor impossível compreende.
Soneto II
Se algum destino rege as nossas vidas,
Foi ele quem traçou teu nome em mim;
Como os rios procuram, sem medidas,
O mar que nunca alcançam por completo, enfim.
Não me revolto contra a tua distância;
Há uma nobreza antiga em esperar.
A própria dor, vestida de elegância,
Aprendeu contigo a se elevar.
Sou cavaleiro de uma causa invisível,
Sem outro reino além da fé que abraço,
Sem outra espada além do impossível.
E sigo erguendo, passo após passo,
A catedral de um sonho inesquecível
Sobre as ruínas luminosas do cansaço.
Soneto III
Quando eu partir, talvez fique no vento
A sombra deste Amor que não morreu;
E o Porto ouvirá meu juramento
Nas águas onde o teu silêncio ardeu.
Talvez ninguém compreenda esta história,
Feita de ausência, névoa e claridade;
Mas toda a alma que alcançou a glória
Passou primeiro pela saudade.
Pois não te Amei como se Ama uma fortuna,
Nem como quem deseja possuir.
Amei-te como se Ama a própria lua:
Distante luz que ensina a prosseguir.
E foi por ti que a noite se fez una
Com a eterna coragem de existir.
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