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quarta-feira, 3 de junho de 2026

SONETOS (I)

Soneto

Já não procuro o som dos teus passos 

Nas ruas onde o tempo adormeceu; 

Levo-te inteira nos meus próprios traços, 

Como quem guarda um céu que não perdeu.


Foste horizonte, estrela e miragem, 

Promessa escrita além da solidão; 

E eu fiz da tua ausência uma viagem 

Que deu mais mundo ao meu pobre coração.


Por ti aprendi que há vitórias raras: 

Não são de quem conquista ou de quem prende, Mas de quem sobe às mais remotas aras.


E assim meu sonho silencioso acende 

As grandes luzes que julgávamos caras, 

E que só o zAmor impossível compreende.


Soneto II

Se algum destino rege as nossas vidas, 

Foi ele quem traçou teu nome em mim; 

Como os rios procuram, sem medidas, 

O mar que nunca alcançam por completo, enfim.


Não me revolto contra a tua distância; 

Há uma nobreza antiga em esperar. 

A própria dor, vestida de elegância, 

Aprendeu contigo a se elevar.


Sou cavaleiro de uma causa invisível, 

Sem outro reino além da fé que abraço, 

Sem outra espada além do impossível.


E sigo erguendo, passo após passo, 

A catedral de um sonho inesquecível 

Sobre as ruínas luminosas do cansaço.


Soneto III 

Quando eu partir, talvez fique no vento 

A sombra deste Amor que não morreu; 

E o Porto ouvirá meu juramento 

Nas águas onde o teu silêncio ardeu.


Talvez ninguém compreenda esta história, 

Feita de ausência, névoa e claridade; 

Mas toda a alma que alcançou a glória 

Passou primeiro pela saudade.


Pois não te Amei como se Ama uma fortuna, 

Nem como quem deseja possuir. 

Amei-te como se Ama a própria lua:


Distante luz que ensina a prosseguir. 

E foi por ti que a noite se fez una 

Com a eterna coragem de existir. 

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